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5 comentários:

  1. ETERNO

    E como ficou chato ser moderno.
    Agora serei eterno.

    Eterno! Eterno!
    O Padre Eterno,
    a vida eterna,
    o fogo eterno.

    (Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie.)

    — O que é eterno, Yayá Lindinha?
    — Ingrato! é o amor que te tenho.

    Eternalidade eternite eternaltivamente
    eternuávamos
    eternissíssimo
    A cada instante se criam novas categorias do eterno.

    Eterna é a flor que se fana
    se soube florir
    é o menino recém-nascido
    antes que lhe dêem nome
    e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
    é o gesto de enlaçar e beijar
    na visita do amor às almas
    eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
    mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma
    [força o resgata
    é minha mãe em mim que a estou pensando
    de tanto que a perdi de não pensá-la
    é o que se pensa em nós se estamos loucos
    é tudo que passou, porque passou
    é tudo que não passa, pois não houve
    eternas as palavras, eternos os pensamentos; e
    [passageiras as obras.
    Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um
    [mar profundo.
    Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos
    [afundamos.
    É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.
    Eternos! Eternos, miseravelmente.
    O relógio no pulso é nosso confidente.

    Mas eu não quero ser senão eterno.
    Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma
    [essência
    ou nem isso.
    E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde
    [pousou uma sombra
    e que não fique o chão nem fique a sombra
    mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma
    [esponja no caos
    e entre oceanos de nada
    gere um ritmo.

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  2. O último dia do ano

    Carlos Drummond de Andrade





    PASSAGEM DO ANO


    O último dia do ano
    não é o último dia do tempo.
    Outros dias virão
    e novas coxas e ventres te comunicarão o
    [ calor da vida.
    Beijarás bocas, rasgarás papéis,
    farás viagens e tantas celebrações
    de aniversário, formatura, promoção, glória,
    [ doce morte com sinfonia e coral,
    que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
    [ clamor,
    os irreparáveis uivos
    do lobo, na solidão.

    O último dia do tempo
    não é o último dia de tudo.
    Fica sempre uma franja de vida
    onde se sentam dois homens.
    Um homem e seu contrário,
    uma mulher e seu pé,
    um corpo e sua memória,
    um olho e seu brilho,
    uma voz e seu eco,
    e quem sabe até se Deus...

    Recebe com simplicidade este presente do
    [ acaso.
    Mereceste viver mais um ano.
    Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
    [ séculos.
    Teu pai morreu, teu avô também.
    Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
    [ espreitam a morte,
    mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
    e de copo na mão
    esperas amanhecer.

    O recurso de se embriagar.
    O recurso da dança e do grito,
    o recurso da bola colorida,
    o recurso de Kant e da poesia,
    todos eles... e nenhum resolve.

    Surge a manhã de um novo ano.

    As coisas estão limpas, ordenadas.
    O corpo gasto renova-se em espuma.
    Todos os sentidos alerta funcionam.
    A boca está comendo vida.
    A boca está entupida de vida.
    A vida escorre da boca,
    lambuza as mãos, a calçada.
    A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

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  3. A máquina do mundo(Drummond)

    E como eu palmilhasse vagamente
    uma estrada de Minas, pedregosa,
    e no fecho da tarde um sino rouco

    se misturasse ao som de meus sapatos
    que era pausado e seco; e aves pairassem
    no céu de chumbo, e suas formas pretas

    lentamente se fossem diluindo
    na escuridão maior, vinda dos montes
    e de meu próprio ser desenganado,

    a máquina do mundo se entreabriu
    para quem de a romper já se esquivava
    e só de o ter pensado se carpia.

    Abriu-se majestosa e circunspecta,
    sem emitir um som que fosse impuro
    nem um clarão maior que o tolerável

    pelas pupilas gastas na inspeção
    contínua e dolorosa do deserto,
    e pela mente exausta de mentar

    toda uma realidade que transcende
    a própria imagem sua debuxada
    no rosto do mistério, nos abismos.

    Abriu-se em calma pura, e convidando
    quantos sentidos e intuições restavam
    a quem de os ter usado os já perdera

    e nem desejaria recobrá-los,
    se em vão e para sempre repetimos
    os mesmos sem roteiro tristes périplos,

    convidando-os a todos, em coorte,
    a se aplicarem sobre o pasto inédito
    da natureza mítica das coisas,

    assim me disse, embora voz alguma
    ou sopro ou eco o simples percussão
    atestasse que alguém, sobre a montanha,

    a outro alguém, noturno e miserável,
    em colóquio se estava dirigindo:
    "O que procuraste em ti ou fora de

    teu ser restrito e nunca se mostrou,
    mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
    e a cada instante mais se retraindo,

    olha, repara, ausculta: essa riqueza
    sobrante a toda pérola, essa ciência
    sublime e formidável, mas hermética,

    essa total explicação da vida,
    esse nexo primeiro e singular,
    que nem concebes mais, pois tão esquivo

    se revelou ante a pesquisa ardente
    em que te consumiste... vê, contempla,
    abre teu peito para agasalhá-lo."

    As mais soberbas pontes e edifícios,
    o que nas oficinas se elabora,
    o que pensado foi e logo atinge

    distância superior ao pensamento,
    os recursos da terra dominados,
    e as paixões e os impulsos e os tormentos

    e tudo que define o ser terrestre
    ou se prolonga até nos animais
    e chega às plantas para se embeber

    no sono rancoroso dos minérios,
    dá volta ao mundo e torna a se engolfar
    na estranha ordem geométrica de tudo,

    e o absurdo original e seus enigmas,
    suas verdades altas mais que tantos
    monumentos erguidos à verdade;

    e a memória dos deuses, e o solene
    sentimento de morte, que floresce
    no caule da existência mais gloriosa,

    tudo se apresentou nesse relance
    e me chamou para seu reino augusto,
    afinal submetido à vista humana.

    Mas, como eu relutasse em responder
    a tal apelo assim maravilhoso,
    pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

    a esperança mais mínima — esse anelo
    de ver desvanecida a treva espessa
    que entre os raios do sol inda se filtra;

    como defuntas crenças convocadas
    presto e fremente não se produzissem
    a de novo tingir a neutra face

    que vou pelos caminhos demonstrando,
    e como se outro ser, não mais aquele
    habitante de mim há tantos anos,

    passasse a comandar minha vontade
    que, já de si volúvel, se cerrava
    semelhante a essas flores reticentes

    em si mesmas abertas e fechadas;
    como se um dom tardio já não fora
    apetecível, antes despiciendo,

    baixei os olhos, incurioso, lasso,
    desdenhando colher a coisa oferta
    que se abria gratuita a meu engenho.

    A treva mais estrita já pousara
    sobre a estrada de Minas, pedregosa,
    e a máquina do mundo, repelida,

    se foi miudamente recompondo,
    enquanto eu, avaliando o que perdera,
    seguia vagaroso, de mão pensas.

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  4. O novo homem (Drummond)

    O homem será feito
    em laboratório.
    Será tão perfeito
    como no antigório.
    Rirá como gente,
    beberá cerveja
    deliciadamente.
    Caçará narceja
    e bicho do mato.
    Jogará no bicho,
    tirará retrato
    com o maior capricho.
    Usará bermuda
    e gola roulée.
    Queimará arruda
    indo ao canjerê,
    e do não-objeto
    fará escultura.
    Será neoconcreto
    se houver censura.
    Ganhará dinheiro
    e muitos diplomas,
    fino cavalheiro
    em noventa idiomas.
    Chegará a Marte
    em seu cavalinho
    de ir a toda parte
    mesmo sem caminho.
    O homem será feito
    em laboratório,
    muito mais perfeito
    do que no antigório.
    Dispensa-se amor,
    ternura ou desejo.
    Seja como flor
    (até num bocejo)
    salta da retorta
    um senhor garoto.
    Vai abrindo a porta
    com riso maroto:
    "Nove meses, eu?
    Nem nove minutos."
    Quem já conheceu
    melhores produtos?
    A dor não preside
    sua gestação.
    Seu nascer elide
    o sonho e a aflição.
    Nascerá bonito?
    Corpo bem talhado?
    Claro: não é mito,
    é planificado.
    Nele, tudo exato,
    medido, bem-posto:
    o justo formato,
    o standard do rosto.
    Duzentos modelos,
    todos atraentes.
    (Escolher, ao vê-los,
    nossos descendentes.)
    Quer um sábio? Peça.
    Ministro? Encomende.
    Uma ficha impressa
    a todos atende.
    Perdão: acabou-se
    a época dos pais.
    Quem comia doce
    já não come mais.
    Não chame de filho
    este ser diverso
    que pisa o ladrilho
    de outro universo.
    Sua independência
    é total: sem marca
    de família, vence
    a lei do patriarca.
    Liberto da herança
    de sangue ou de afeto,
    desconhece a aliança
    de avô com seu neto.
    Pai: macromolécula;
    mãe: tubo de ensaio
    e, per omnia secula,
    livre, papagaio,
    sem memória e sexo,
    feliz, por que não?
    pois rompeu o nexo
    da velha Criação,
    eis que o homem feito
    em laboratório
    sem qualquer defeito
    como no antigório,
    acabou com o Homem.
    Bem feito.

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